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O impacto de um nascimento.

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por Jorge Luiz Veschi


A impressão que se tem é de que um nascimento seja um ganho, mas de fato é uma transformação.

 

Não há um contínuo entre antes de uma gestação e depois. Um nascimento insere um ‘diferenciador’, a individualidade dos pais, sua relação e a singularidade da criança sofrerá a intervenção de um real ‘forçando’ um processo de diferenciação e promovendo o aparecimento de diferenças; dependerá da capacidade de cada um e do sistema dos relacionamentos o desfecho desse acontecimento. Podemos dizer que uma criança traz para o real um ‘estranho precursor’, a partir do qual e em torno do qual se configurará uma realidade.

Uma criança traz uma realidade com sua subjetividade e com os fantasmas que desperta nos pais. Não há sequer preparação para isso porque não é previsível o que vai ser mobilizado nem o que exercerá a força mobilizadora. A criança se situa na intersecção do devir que ela traz e do passado que desperta nos pais em relação à origem deles. Está entre seus ancestrais e seus descendentes.

Cada indivíduo, assim como os pais e as mães, têm o que Freud designou como ‘teoria da origem’, essa teoria geralmente é inconsciente e se encontra recoberta pela teoria de que o grupo social tem sobre a origem que, no nosso caso, é a teoria biológica implicando a relação sexual.

O imaginário, porém, não é regulado por esta teoria. Temos 3 teorias que regulam a partir do imaginário a teoria de que cada indivíduo tem acerca de sua origem e que regula a relação do pai e da mãe com seus filhos e dos filhos com os pais.

A primeira teoria é a ‘bipartição’. Nesta teoria os filhos são ‘da mãe’.

 

As crianças nascem a partir do corpo da mãe e seriam sua continuidade. As mães exprimem esta teoria através do sentimento de posse sobre os filhos e suas exigências de que lhe dêem continuidade e permaneçam ligados o mais simbioticamente possível a elas. Nesse caso o pai é colocado, ou se coloca caso o pai tenha esta teoria em si, de fora ou como mero coadjuvante da origem do indivíduo. O indivíduo com esta teoria a seu respeito não se vê enquanto autônomo ou diferente da mãe, não importando a distância geográfica que se encontra da mãe.

A segunda teoria é a ‘cloacal’.

 

Segundo esta teoria a criança é ‘inoculada’ na mãe pelo pai, na forma de um óvulo ou ‘homúnculo’. É uma teoria bem difundida em nossa sociedade durante séculos onde os filhos, representados pelo porte do ‘nome do pai’, se constituem a partir da linhagem e da identificação paterna. Os filhos são considerados filhos do pai, e sobre eles o pátrio poder já teve poder absoluto, e a mãe é considerada a geradora dos filhos.

Tanto pais quanto mães apresentam frequentemente esta teoria, aparecendo esse fato no tipo de relação que desenvolvem entre si e com a criança a partir do nascimento desta.

A terceira teoria, afirmada pela biologia, é a mais difícil de se constituir no imaginário. A teoria sexual da origem resvala em resistências consideráveis por demandar: que cada um tenha que construir sua identidade, uma vez que esta não pode ser remetida nem à linhagem ou pura identificação paterna nem materna, uma vez que a origem bifurca na direção tanto do pai quanto da mãe; e não existe uma ‘dívida’ originária dos filhos visto ter o prazer na origem.

A maior parte dos conflitos entre pais e filhos e no casal quanto aos filhos derivam da falha na teoria sexual da origem.

Vemos que, por um lado a criança demanda que os pais sejam ‘seus pais’, significa, que coincidam com as imagos que traz em si quanto aos pais, por outro, faz surgir nos pais os fantasmas destes que tendem a aliená-los de si mesmos impondo fantasmas antigos quanto a própria infância e aos próprios pais. Esse desencontro costuma ser critico.

Os pais são impulsionados na direção de sua individualidade ameaçando o acasalamento. A regência fálica se torna critica. Onde estará agora localizado o falo: no pai, na mãe ou na criança?

A primeira função do pai é a de resgatar a sexualidade da mulher, que tende a ficar eclipsada com a maternagem sem, com isso, privar a criança de sua mãe.

A maternagem pode ser tanto profundamente prazerosa quanto angustiante dependendo do psiquismo materno. As crises maternas são conhecidas na clínica, apesar e em grande parte devido à idealização do papel e da afetividade esperada por parte da mãe. A sociedade moderna ao mesmo tempo em que dificulta o exercício da maternagem pelo nível de exigência feito às mulheres, tem oferecido um ‘escape’ para a complexidade da maternidade através dos mesmos dispositivos que a dificulta – levando a mulher relativamente para longe da criança

As fantasias de rejeição e de inveja podem se tornar muito ativas no pai abalando o exercício de sua função. É bastante discutido atualmente as mudanças dos papéis e funções dos homens e mulheres e das dificuldades dos homens a se adaptarem às mudanças das mulheres e do feminino.

A relação dual é estruturalmente diferente da triangular. Apesar da psicanálise ter tematizado amplamente essa triangulação sob o ponto de vista da criança, ela ocorre intensamente também por parte dos pais. Os sentimentos e moções que os pais vivem em relação ás crianças e entre si são bastante complexos a partir desta perspectiva triangular.

O nascimento de outros filhos pode intensificar ou diminuir as possíveis tensões entre o casal dependendo de como serão ‘distribuídos’ os filhos. Para as crianças o fato de haver irmãos ou/e irmãs é importante por distribuir melhor a pressão dos pais e permitir relações horizontais.

Nossa sociedade optou pelo caminho do capitalismo e do consumo, isso remete a um nascimento para o ambiente do custo, do investimento. As pessoas raciocinam a respeito do ‘custo’ financeiro dos filhos e não a respeito de seu efeito e sua presença afetiva.

 

Com isso não só se calcula financeiramente para se ter ou não filhos como, cada vez mais, se tende a investir em si mesmo e não em filhos. Nos países mais ‘desenvolvidos’ é crescente o número de pessoas que preferem viver sozinhas. O indivíduo e o individualismo se constituem enquanto consequência inevitável desse tipo de sociedade. Efetivamente uma criança é onde os pais e a humanidade arriscam seu futuro e são convocados a apresentar a sua existência. Dizemos que ‘a criança é o pai/mãe do Homem/Mulher’ – para sermos politicamente corretos.

 

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