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A Clínica da Cidadania e o Terapeuta Cidadão

November 5, 2017

 

Por Jorge Veschi

 


Uma sociedade pode ser comparada a um elemento fractal ou holográfico, ou seja, cada parte dela contém informações do todo. É uma estrutura complexa, entretanto pode-se ter informações sobre determinada sociedade a partir de uma pequena amostragem ou, dito de outra forma, ela pode ser vista na íntegra a partir de um ângulo restrito.


Para tanto, devemos considerar que, tanto a sociedade quanto seus componentes são ‘não-todos’ e portam linhas de fuga importantes. O que estamos tentando dizer com tudo isso? Que estas linhas de fuga e aquilo que delas diverge, tendem a estabelecer maneiras de relacionamento, modos de conflitos ou áreas específicas de pressão em relação à tendência de totalização.

​​Mas do que se trata, afinal? De reproduções, de modelos. As instituições, as famílias e o sujeito (em suas divisões e instâncias psicológicas) reproduzem modelos que se apoiam mutuamente e reapresentam esses princípios de ordenamento. Por exemplo: Um trabalho que não leva em conta o sujeito que o executa, vem a se constituir como um trabalho alienante, e o trabalho que leva em conta o sujeito que o executa mas não incluí tudo aquilo que o constitui como sujeito, suas idiossincrasias por exemplo, se torna inócuo.

​​Nesse sentido, precisamos observar que temos como princípio de atravessamento da nossa sociedade e seus componentes, o capital. E o que traduz esse princípio e toda essa engrenagem, por assim dizer, é o que Buarque de Holanda chamou de o ‘homem cordial’, visto que é aquele que tem como função recobrir um sistema escravocrata, é aquele cuja alegria camufla a violência do sistema, é aquele de quem a versatilidade encobre a malandragem e uma atitude transgressora frente a lei. Embora um não corresponda a verdade em relação ao outro, são elementos que se articulam simultaneamente.

​​Diante desse cenário, pensar numa intervenção terapêutica nos espaços da cidade, é pensar no tipo de intervenção e no princípio que diz respeito ao reconhecimento dessa estrutura holográfica que falamos acima, e da qual a situação conflitiva geralmente aponta, pois é indicativo de uma linha de fuga.​

As formas de atendimento psicológico que temos ainda hoje, obedecem ao modelo das internações e seus fundamentos, ou seja, a pessoa é isolada de seu ambiente e o terapeuta se encontra em uma situação segura e diferenciada. Este modelo faz parte da concepção higiênica e de contágio da medicina.

A ideia do terapeuta cidadão, entretanto, corresponde a um tipo de atitude e a uma essência bem diferente, pois uma vez que cada sociedade produz os seus próprios tipos de conflitos, sintomas e doenças, é esperado que provoque o surgimento de profissionais e técnicas que lidem com tais situações.

Se, por outro lado atuarmos de forma alienada, apenas trabalharemos no sentido de eternizar os problemas adequando as pessoas a uma realidade que se mostra problemática para quem adoece.

Qual é a proposta então? Nossa proposta é a de que precisamos trabalhar em um ponto incômodo na articulação do desejo enquanto desejo do Outro – temos o desejo do sujeito e seu arbítrio, mas temos o desejo do Outro em seus vários níveis.

​​Quando vamos trabalhar em ambientes como o social, o familiar e o empresarial, estamos adentrando um espaço sagrado e de alienação. Instaurar condições de palavra e de subjetividade nestas condições, implica lidar com forças de resistência bastante significativas, tanto por parte da eventual pessoa, enquanto lugar do sintoma, quanto das demais pessoas comprometidas com a vigência do sintoma e dos conflitos; e é nesse sentido que se faz necessário admitir algo fundamental, que os sintomas são redes que envolvem diversas pessoas e relações.

Um exemplo de como isso ocorre é que quando uma pessoa adoece somaticamente de algum órgão, geralmente se deve ao fato deste órgão estar sendo sobrecarregado e, uma vez alterado devido a essa sobrecarga, passa a alterar os demais órgãos; no caso das pessoas se passa o mesmo tipo de situação.

​​É por conta desse movimento, que Freud fala de como a psicologia individual e a social são a mesma coisa, e a física quântica procura estas mesmas semelhanças entre o micro e o macro. Portanto, é de suma importância que nos capacitemos para observar a forma como as situações reverberam e se reproduzem, assim como seus pontos de divergência e suas linhas de fugas.


​​Embora já existam sinais de mudança, ainda temos um modelo tradicional na área da saúde mental que é a do médico-higienista, que coloca o hospital ‘isolado’ da cidade. Porém, nossas afecções se dão em uma área de contágio dos relacionamentos, se reproduzindo inclusive dentro dos muros desse suposto isolamento higienista.

Ou seja, as questões emocionais não podem ser pensadas fora de uma concepção de convívio - tematizadas por Freud na questão da transferência, da sexualidade, do desejo - noções que implicam a ideia de ‘passe’ e de contágio.

A inserção do terapeuta na ordem da cidadania, corresponde portanto, ao reconhecimento das condições por onde se constituem, se estabelecem e podem se resolver as afecções anímicas, mesmo que sejam apresentadas aparentemente isoladas em um organismo individual. Afinal, até chegar ao ponto de se manifestar enquanto sintoma de uma pessoa, uma perturbação precisa fazer um processo longo de condensação, e seu tratamento demanda uma desconstrução deste processo. Ao mesmo tempo que se torna necessário o reconhecimento de uma responsabilidade pela afecção e pelo tratamento por parte do indivíduo, é também necessário o reconhecimento das ramificações anteriores e posteriores de uma afecção, sem o qual operamos um tratamento alienante.

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